sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

tempo, tempo mano velho

O relógio de Carolina havia parado. Foi no dia 26 e ele estava marcando exatamente 13h18min. No exato momento ela percebeu que parara de ouvir o já familiar tic-tac. E o tempo não parou, passou mais e mais depressa. Há três dias o relógio está no seu armário, marcando as exatas 13h18min, enquanto do outro lado da porta o tempo segue veloz. Nesses 3 dias as pessoas continuaram indo e voltando do trabalho, as roupas continuaram secando no varal, pode-se ouvir o barulho das buzinas e dos carros passando na rua. Algumas pessoas terminaram livros, outras terminaram namoros, algumas morreram, outras nasceram, algumas pessoas choraram, outras viveram o melhor momento de suas vidas. Milhões de coisas aconteceram ao redor do mundo e o relógio ainda marcava as mesmas horas. E Carolina continuava idêntica nesses dias que se passaram.
Tomava banho e insistia em vestir a mesma roupa. Comia pouco, assistia a alguns filmes irrelevantes, dormia muito e não havia colocado os pés para fora de casa. Era como se estivesse morta e continuasse viva. Mentia para si mesma que seu comportamento nada tinha a ver com o relógio, afinal, o tempo continuava correndo. Mas no fundo reparara que, por mais estranho que tivesse sido, o relógio tinha parado no mesmo instante em que ela dizia "não te amo mais" para a maior paixão de sua vida. E sabia que assim como o relógio precisa de pilhas novas para continuar girando, seu coração precisava de um novo amor para continuar batendo.

domingo, 2 de agosto de 2009

sobre amor e poesia.

- escreve aquela poesia sobre nós
- nosso amor é efêmero
- então muda a rima
- a rima tem muita importância?
- é claro, eu me importo com você
- mas minhas rimas são sempre rimas pobres...
- desde que as entrelinhas sejam ricas...
- mas eu não sou poeta, apenas sinto. sinto muito
- quer saber? a rima não tem importância, e as entrelinhas... ah, as entrelinhas são consequências. escreve em vermelho, todos vão saber que foi por amor.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

sem graça

Ana se mudara já havia dois dias, mas ainda não se sentia em casa. Quando vira no jornal o anúncio de locação daquele apartamento, tudo parecia perfeito. Um apartamento no centro [como sempre quis], pé direito alto, dois quartos, lavanderia... Mas a última palavra do anúncio a deixou insegura: mobiliado.
Não era um preconceito, o problema era que nunca se sentira bem com as coisas dos outros. Nunca comprara livros em um sebo porque não gostava do fato de alguém ter lido antes, e era incapaz de emprestar os seus. Não era por egoísmo, nem por excentricidade. Ana simplesmente era possessiva.

Um dia depois de ler o anúncio tomou uma decisão. Iria arriscar e alugar o apartamento sem visitá-lo antes.

Agora, Ana estava sentada no sofá, não dormira direito nos últimos dias, já eram quase 11 horas da noite e o sono não vinha. Observava aquele apartamento que agora era “seu”. Havia algumas revistas velhas em cima da mesa, a televisão tinha uma imagem boa... Mas o que havia chamado sua atenção era um piano perto da sacada. Sempre quisera tocar piano, mas seus pais lhe diziam que suas mãos eram muito pequenas e que no apartamento em que cresceu não havia espaço pra um piano. Mas agora ela estava sozinha e em um lugar novo. Que mal poderia haver?

Quase num impulso, Ana levantou-se e sentou em frente ao piano. Começou a bater as teclas aleatoriamente, para ela, isso soava como música. Tocou sem parar até o amanhecer. Quando parou, notou não estava cansada. Seus dedos não doíam. Sua mão já parecia grande. Ana já se sentia grande. Agora aquele lugar finalmente era seu.

terça-feira, 14 de julho de 2009

the eternal sunshine of the spotless mind

Joel: I don't see anything I don't like about you.
Clementine: But you will! But you will, and I'll get bored with you and feel trapped, because that's what happens with me.
Joel: Okay.

domingo, 24 de maio de 2009

subjetividade

"É como se eu estivesse desaparecendo" disse ele sentindo as palavras passarem pelo gosto amargo de sua boca. "É como se eu estivesse desaparecendo pelas causas mais improváveis. Não pela falta de amor ou pela solidão dos discos. É como se eu estivesse desaparecendo por ter tanta coisa para dizer mas não conseguir colocar palavra alguma após as vírgulas, por ter um sujeito e não ter um objeto. É por saber todas as preposições mas não ter um verbo transitivo para acompanhá-las, por ter tantos livros espalhados pelas mesas, estantes e armários e não conseguir relacionar os títulos e autores com as histórias. Sinto que estou desaparecendo quando leio o jornal durante o café da manhã e as notícias parecem ser sempre as mesmas, quando me olho no espelho e não vejo mais do que cabelos grisalhos e uma barba por fazer. É como se eu estivesse desaparecendo. É como se eu estivesse... É como se eu... É como se... É como... É..." ele levanta da cama e vai até o banheiro. Olha para sua imagem no espelho. Cabelos grisalhos. Barba por fazer. Fecha os olhos. Abre novamente. Por um segundo, não enxerga a imagem refletida.

domingo, 12 de abril de 2009

nem tudo.

nem tudo que te faz chorar te magoa. nem sempre o novo ano significa amadurecimento. nem sempre a música do seu artista preferido é a sua favorita. nem sempre o amanha é esperança. nem sempre a ausência é falta. nem sempre a insegurança é loucura. nem sempre a segurança é controle. nem sempre a distância separa. nem sempre a solidão isola. nem todo sorriso é alegria. nem toda ideia é criação. nem toda foto é lembrança. nem todo ruído é barulho. nem todo livro é refúgio. nem toda interrogação é dúvida. nem todo erro precisa de arrependimento. nem toda carta é convite. nem todo olhar é mistério. nem todo beijo é carência. nem amor.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

o que o tempo [não] leva

- É meio esquisito, não? Eu ficava imaginando tudo o que diria quando te encontrasse novamente... Agora é como se nós fossemos dois estranhos
- Eu também me sinto assim. Mas, puxa! Dez anos é muito tempo
- Às vezes você não pensa como seria se tivesse dado certo?
- Claro que sim! E isso me assusta um pouco
- Como assim?
- Você sabe, fica parecendo que estou vivendo a vida de outra pessoa, de um estranho. Como se tudo pudesse ser completamente diferente em todos os sentidos, o que traz à tona a fragilidade e incerteza das relações e... da vida
- Naquela época você não tinha medo de nada
- Naquela época ninguém tinha medo. Mas nós crescemos
- Pouco antes de te conhecer, eu imaginava que me tornaria uma velha e amargurada tradutora morando com quinze gatos. Vê, não mudou muita coisa, exceto pelos gatos
- Hahahaha, você não perdeu o senso de humor
- E você não perdeu este sorriso pueril
- Assim você me deixa sem graça...
- É intencional
- Não começa com isso
- Eu te amei, amei muito. Eu sei que já faz tanto tempo, o problema é que nesses anos todos não foi igual com ninguém
- Eu também gostei muito de você... Mas já te disse que éramos jogos de quebra-cabeças diferentes, peças que não se encaixam
- Você ainda pensa assim?
- Por mais difícil que possa ser pra você, sim, penso. Vamos parar com isso. Está ficando tarde, é melhor eu ir
- Eu queria que você pudesse ficar um pouco mais
- Eu sei, mas tenho certeza que nos encontraremos novamente por acaso, assim como aconteceu hoje
- É, talvez... Ei, posso fazer uma última pergunta?
- Pode
- Você ainda lembra dos nomes?
- É claro! Você havia escolhido. Se fosse menina seria Clarice. Se fosse menino, Caio Fernando.
- Você me surpreende! Então, o que dizer agora... Adeus?!
- Eu diria até logo
- Até logo

Quatro anos depois. Ele atravessa a rua em direção ao supermercado. Na mão esquerda carrega uma aliança. No colo, seu filho, Caio Fernando. Ela atravessa no sentido contrário, em direção a um café onde irá encontrar suas amigas.
Por um segundo, os olhares deles se cruzam. Não se reconhecem.